Mensagens

Noé Grande não sabia nadar

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Noé Grande não sabia nadar, por isso andava sempre com um barco no bolso.
Como gostava muito de peixes, arranjou um aquário onde pudesse guardar um par de todas as espécies marinhas.
O maior aborrecimento da vida de Noé era não poder mergulhar por entre a sua colecção de eternidades.

Mensagem

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Só tu me podes ler… Mas será que me consegues ouvir? Será que me podes ver? Pensas que não te posso ver, enquanto lês estas palavras… Afinal, as letras não são olhos, certo? Será mesmo assim? Talvez as letras sejam a pupila, as palavras a íris e o fundo da página a esclera do olho. Talvez eu te leia da mesma forma que tu me lês. Duvidas? Então vamos fazer uma coisa. Afasta esta mensagem da tua vista, apenas o suficiente para não conseguires ler o conteúdo. Pode ser? Caminha para trás. Só mais um bocadinho… Perfeito! Agora consegues ver-me, não consegues? Consegues ver-me, tal como eu te vejo a ti.


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(Escrito no âmbito dos desafios das Páginas Partilhadas grupo de escritores que se juntou para escrever textos relacionados com um tópico colectivo definido mensalmente)


1, 2, 3, Salva todos!

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...97, 98, 99, 100! Prontos ou não, lá vou eu!

Começo sempre por revistar o módulo do sistema aquapónico e o processador a energia solar da reciclagem de oxigénio. É isto que mantém vivos os sobreviventes da estação espacial Luna 02, por isso nunca é desligado. Se o sistema fosse abaixo, seria impossível voltar a ligá-lo. Posso esquecer-me de tudo, menos de verificar os níveis de autonomia deste compartimento. Espreito cautelosamente por detrás de cada aquário estanque e viveiro flutuante.

– Será que ele está aqui? – Vou dizendo teatralmente, sobre o pano de fundo de um risinho abafado, que localizei mal entrei na divisão. – Oh! Não, não está! Onde se terá escondido aquele malandreco? Ora deixa cá ver… Aha! Olha, também não está aqui… Ah Já sei! Aqui! Não… – Prolongo a comédia o tempo suficiente para não penalizar demasiadamente a sua ansiedade. – Tiago estou a ver-te debaixo do emaranhado de cabos!

– Oh, tia, descobres-me sempre! – O miúdo de 5 anos dá uma cambalhota em pleno ar e f…

O homem que queria matar o tempo

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Olá. Eu sou um dos carcereiros do viajante do tempo. Sou o guarda número 37. Muito prazer em conhecer-te.
Desde que o percurso do viajante do tempo foi desvendado, tornou-se crucial instalar celas em todos os locais e tempos por onde continuava a viajar, à revelia da vontade das autoridades.
Estou de vigia a um dos locais onde a máquina do tempo poderá aportar entre o meu nascimento e a data da minha morte, daqui a 43 anos.
Na maior parte do tempo não tenho nada que fazer. O tédio é a nota dominante dos meus dias, a desesperança o libreto da minha vida.
De qualquer forma, acredito que as chefias estão a cometer um erro. Para quê prender o viajante do tempo? Não seria mais simples matar o próprio tempo? Sem passado ou futuro, o viajante teria de se contentar com o momento presente, vendo-se impedido de fugir para outro período histórico.
Tenho passado muito tempo a pensar neste projecto, debruçado sobre esta altruística intenção.
É que, bem vês, não sou o único prisioneiro das excentr…

O comboio infinito I

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O comboio ser infinito há muito que deixara de me surpreender. 
Até tinha as suas vantagens.
Quando estivesse atrasado, bastava-me a correr ao longo das carruagens interligadas, em direção ao meu destino. Desse modo, dividia a distância pelo movimento, viajando também através do tempo, tal como me locomovia através do espaço.
Sabia que a viagem daquela composição nunca se iniciara e também nunca terminaria.
As estações eram simples pontos cardeais cravados na eternidade.
Quando o comboio infinito dava a curva, esta era infinita, pelo menos durante o curto espaço de tempo da viragem para o outro lado do eterno.
Que parte do infinito teria eu já percorrido? Um terço? Dois terços?

O comboio infinito II

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O comboio ser infinito, já nada me admirava.
Surpreendente foi descobrir pegadas no tecto da carruagem... Não uma marca solitária, mas uma fila de marcas perfeitamente sincronizadas, denunciando uma descontraída caminhada.
Quantas vezes não levantava os olhos à espera de descobrir o invulgar passageiro de pernas para o ar - olhos ao nível dos meus, mas com a cabeça ao contrário.
Não seria o comboio a insuspeitada teia dum predador arribado dos confins do universo? Um potente alucinogénico criaria a ilusão do comboio, enquanto esperávamos o nosso momento de sermos devorados!
Na verdade, e pensando bem nisso, os varões e pegas tinham qualquer coisas de sinistro... Pareciam mais para nos segurar do que para nos segurarmos.

O comboio infinito III

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Nunca vira um revisor no comboio infinito... Nada a estranhar, num meio de transporte sem fim - seria humanamente impossível o pica chegar a todas as carruagens.
Ou talvez a explicação fosse mais prosaica: o bilhete seríamos nós, os próprios passageiros... 
Seríamos inesperados doppelgängers, a pagar pelos pecados de criminosos nunca capturados? 
Estaríamos todos mortos, numa espécie de purgatório?
Ou seria este o inferno?
Convenhamos que, a réstia de esperança em chegarmos finalmente à nossa estação, era em si mesma uma infame trela eterna... o inferno não poderia ser muito diferente disso.
Mas, contra todas as expectativas, a esperança perdurava, nos solavancos das rodas na linha do comboio. A esperança de que em breve as portas se abririam e regressaríamos à vida...
Enfim, as coisas de que me ia lembrando durante a perpétua viagem!
E os negros vidros reflectiam o interior da carruagem, como se a paisagem fossem afinal os passageiros - talvez o paraíso seja um lugar olvidado dentro…