
UMA CANÇÃO PARA DIZER ADEUS

Dizem que falar com as plantas ajuda ao mais sadio e robusto desenvolvimento destas… uma flor, muito para além do seu inato mutismo e imobilismo, pode e deve ser naturalmente eleita como a confidente mais aconselhável para o desabafo de todas aquelas ridículas e minúsculas quezílias que usualmente travamos connosco próprios.
Contudo, penso não me enganar muito ao afirmar que as plantas passam melhor sem o fertilizante das palavras do que com a ausência de água.
Suponho que o cuidado duma palavra amiga possa ser de alguma utilidade ao salutar crescimento das nossas florestas, mas ninguém me tira da cabeça que a verdadeira razão porque as pessoas falam com as plantas tem a ver com uma certa e determinada necessidade de protagonismo inerente à natureza humana.
O que interessa não é tanto falar com as plantas, mas sobretudo encontrar um escape para os gases venenosos que nos entopem e intoxicam por dentro… e se falar sozinho é coisa de gente doida, une-se o útil ao agradável e discursa-se para as plantas.
Posto isto, se falamos com as plantas, por que não falar então com uma folha de papel, com um monitor de computador ou até com uma fotografia?
Sim, agora fora de brincadeiras… se palestramos para as nossas plantas, porque não dissertar também para uma folha de papel, um monitor de computador ou uma fotografia?
Talvez sejam essas as mil palavras que se diz equivalerem a uma imagem – as mil palavras gastas em amena cavaqueira com uma fotografia.
Mal por mal, talvez não fosse pior debater as grandes e pequenas futilidades do nosso pequeno e acanhado mundo com um espelho…
As coisas seriam então mais reais e incomparavelmente mais autênticas.
Seguramente que a forma ideal de rematar a conversa mais estranha e suspeita que poderíamos ter com um espelho seria socorrer-nos da lacónica declaração:
– Desculpa, mas eras tu ou era eu.
Suponho, todavia, que não estaríamos livres da possibilidade do espelho nos retorquir:
– Tenho saudades do tempo em que havia um futuro para nós.


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