Sábado, Março 04, 2006


NAVIO DE PEDRA Posted by Picasa

Navegávamos noite adentro, embarcados num navio de pedra, isto senão quando dei por mim de olhos fechados para o horizonte.

Tocaste-me gentilmente no ombro e eu virei-me para ti. A aurora boreal dançava no teu olhar, o fogo encrespava-se no meu peito.

– Foi para isto que vencemos a distância? – Questionei-te desdenhoso.

– Foi para isto e pelo amanhã. – Retorquiste pacientemente.

– A misericórdia é a moeda de troca entre os tolos e os fracos. – Sorri perversamente, tornando a fechar os olhos.

Tu tomaste-me a mão.

Se me abstraísse do mundo à minha volta, quase, quase poderia jurar ouvir o restolhar da tua saia ao sabor dos caprichos da brisa marinha.

Não sei por quanto tempo mantive assim a mão suspensa no nada até o homem da gávea gritar a plenos pulmões:

– Terra à vista!

Voltei a abrir os olhos, desviando-os para o horizonte vazio.

A manhã espreitava por detrás do véu da aurora.

(em memória da minha mãe, no sétimo aniversário do seu falecimento)