Domingo, Janeiro 15, 2006


O DEUS DOS LIVROS Posted by Picasa

Um livro é a partitura da música na alma do seu autor. Mas o que dizer do leitor?

Um livro novo, acabadinho de chegar às nossas mãos, é como uma cadeira, uma mesa ou uma cristaleira. Lá descansam os nossos corpos cansados e bebem luz nossos ávidos olhos.

Suponho que o sítio onde fazem os livros deve ser semelhante a uma carpintaria, só que no lugar da serradura haverá aparas de papel empilhadas e acumuladas por todo o lado.

Máquinas e ferramentas bem oleadas trabalham infatigavelmente rolo após rolo, escrevendo letra a letra, frase a frase, parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo, livro atrás de livro, cortando folha após folha, costurando caderno a caderno, desenhando em série a esquadria da capa.

Depois, quando os volumes acabados são cuspidos da última máquina, o mestre toma delicadamente em cada uma das suas rudes mãos um exemplar da obra. Sente-lhe o peso, como uma balança. Rejeita este atirando-o para o chão e, fitando os amedrontados aprendizes, concede “Não está mal, não está mal”, ao mesmo tempo que poisa gentilmente o eleito dentro do último caixote no atrelado do camião.

O condutor sela imediatamente o caixote, fecha as portas e corre para o seu assento, que o motor ruge já de impaciência. O camião parte velozmente em direcção a todas as livrarias do mundo.

Se a viagem correr pelo melhor, não tardará muito para que possamos uma vez mais oferecermo-nos em holocausto à divindade de papel.

O deus dos livros é um assaltante encapuçado irrompendo por uma livraria adentro gritando:

- Se ninguém se mexer, ninguém se magoa!

(Um pouco à semelhança de todos os outros deuses.)

Só que alguém mexe sempre, pois a vida não pede licença para acontecer – e o leitor é a vida que acontece aos livros.