
FECHADO PARA OBRAS

Estou fechado para obras.
Ninguém entra.
Ninguém sai.
Selei todas as portas, frinchas e frestas que me dessem acesso.
As pálpebras desceram-me pesadamente sobre os olhos, aconchegando-me os pensamentos em suaves lençóis e trazendo a noite à minha percepção.
A minha vida está entre parêntesis.
O mundo real ficou lá fora.
Do mergulho vertiginoso desde o precipício do eu, rasei perigosamente as escarpas do meu, afundando-me bem fundo no oceano de mim.
Só peço uma coisa: por favor não acendam a luz!
Para já não quero acordar.
Tenho o segredo do mundo fechado na palma da minha mão.
Vejo na escuridão… ver no escuro talvez até nem seja sonhar, mas eu não quero acordar.
O sonho engalana-se de cores vívidas… maravilhosas… intrigantes…
O sonho é como um peixe das profundezas dos mares, não precisa camuflar-se para se resguardar de nefastos predadores.
Assim, o sonho nada livre pelas negras funduras da consciência, ziguezagueando num destino sem rumo – um caminho de luz gravado em espiral nas trevas do ser.
Sou uma outra pessoa dentro dos meus sonhos.
Tenho os olhos bem abertos dentro dos meus sonhos.


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