
PASSADEIRA

Francisco Boquinhas acordou um dia, espreguiçou-se ainda meio encoberto pelos lençóis e foi como que iluminado pela descoberta da sua verdadeira vocação: Messias!
Estava decidido – Francisco Boquinhas nascera para salvar a humanidade dos seus pecados.
O que o surpreendia naquele momento era como é que nunca compreendera isso antes.
Por amor de Deus! Estivera sempre à frente do seu nariz: Francisco era a reencarnação de Jesus Cristo: nascera para expiar os pecados do mundo.
Sim, porque agora via esclarecido o mistério do seu obscuro nascimento. Francisco Boquinhas crescera num orfanato, nunca conhecera os pais. Provavelmente a sua mãe assustara-se com o milagre da concepção espontânea e abandonara-o à porta do orfanato. Mas essa não era a única coincidência com a vida de Jesus. Francisco Boquinhas tinha acabado de fazer 30 anos, a idade de Cristo quando começara a pregar e, mais relevante que tudo isso, era carpinteiro. Aliás, Francisco Boquinhas não era um simples carpinteiro: era profissional para perfeccionista nenhum encontrar defeito no seu trabalho: já fizera móveis até para o presidente da República.
Para além de todas as coincidências, havia ainda outro aspecto a não desprezar: que melhor altura que não esta para Francisco Boquinhas começar a evangelizar? Nunca na longa e tenebrosa história da humanidade um Messias fora tão necessário. Mais do que esmagadas pelo stress, pela crise e pela competitividade do ritmo alucinante da vida moderna, as pessoas encontravam-se isoladas no meio da multidão, como pequenas ilhas circundadas pelo mar da incompreensão e da intolerância. Se o sexo, as drogas e o rock & roll tinham falhado, o mesmo não sucederia com a voz de Francisco Boquinhas!
Era preciso que as pessoas reavaliassem longitude e latitude da geografia religiosa do seu panorama mental.
Se havia alguém à face da terra capaz de falar com a multidão como se falasse individualmente com cada rosto anónimo que constitui a maralha, esse alguém era Francisco Boquinhas.
Mas como começar esta nova evangelização? Não seria uma estafa inútil e desnecessária correr Portugal de lés a lés? É verdade que os meios de transporte tinham evoluído bastante desde que andara a ensinar na Galileia. Mas se muito tinham evoluído os meios de transporte, o que dizer dos meios de comunicação? Sim, uma estratégia de evangelização no século XXI teria de ser definida a um nível global. Começar por espalhar a boa nova em Portugal era em muitos aspectos contraproducente. Francisco Boquinhas tinha era de partir para a América. A Fátima dos salvadores do mundo fica do outro lado do atlântico. É na América que as coisas acontecem. Tinha a certeza de que uma palavra dita no mais recôndito estado norte-americano, ecoaria muito mais depressa em Bragança do que ecoaria uma palavra dita em Bragança ecoaria em Lisboa.
Claro que nesta altura Francisco Boquinhas lamentou não ter prestado mais atenção às aulas de Inglês no liceu, mas depois pensou que, se na sua anterior encarnação conseguira multiplicar o pão e o vinho, com certeza poderia agora também multiplicar as línguas em que seria ouvido pelos fiéis. Sim, bastar-lhe-ia falar em português, porque a mensagem chegaria perfeitamente inteligível aos ouvidos dos seus seguidores.
Sim, Francisco Boquinhas nascera para salvar o mundo de si próprio. Estava nas suas mãos o destino da humanidade. Isto para não falar que, para lá da nobreza da missão, este lhe parecia um método excelente de engatar miúdas…
Bom, mas talvez o melhor fosse entretanto Francisco levantar-se, fazer a barba (ou talvez não, talvez fosse preferível deixar crescer barba e cabelo, para estar visualmente mais acessível ao arquétipo mental que as pessoas tinham de Cristo), tomar banho, vestir-se, arrumar uma trouxa, ir tomar uma bica ao café da esquina, fumar um cigarro e partir em direcção à costa.
Que melhor cartão de apresentação que atravessar o atlântico a pé? Afinal, andar sobre as águas tinha ficado muito batido. Devemos sempre tentar superar-nos a nós próprios. Francisco Boquinhas já podia ver o atlântico a acalmar a fúria das suas ondas, como se estendesse uma passadeira onde mais comodamente se caminhasse. Já podia ver todo o oceano a aclamá-lo como uma imensa passadeira prestes a conduzi-lo à glória suprema. Francisco Boquinhas mal podia esperar para ver a cara de espanto dos nova-iorquinos quando o vissem chegar da sua longa peregrinação para começar a espalhar a boa nova!
Claro que, para isso, antes teria de fugir do hospício…


<< Home