Segunda-feira, Novembro 21, 2005


O FILHO DO AZAR Posted by Picasa

Armando Rifa achava uma certa piada àqueles comediantes de algibeira que, falando dos fabulosos jackpots do Euro milhões, comentavam “A mim é que não calha de certeza porque eu não joguei!”

E achava graça porque a Armando Rifa saíra sempre a lotaria do azar, mesmo sem nunca ter comprado cautela.

Sabia até de cor e salteado os fictícios números de cada um dos bilhetes utilizados pelo azar para ao longo dos anos o bafejar com o seu hálito cru e desagradável:

1 era o número de vezes que Armando Rifa copiara na escola, já que a professora de Português do 5º ano apanhara a cábula ingenuamente esquecida por debaixo da mesa depois de acabar o teste e ter saído mais cedo da sala. Armando fora chamado ao conselho directivo e severamente repreendido. Logo ele que, para o bem ou para o mal, nunca abria a boca nas aulas!

2 era o número de passos que Armando Rifa, ainda mal acabado de regressar de estudar em Lisboa, dera no cimento fresco do passeio à porta da casa dos pais, imortalizando para sempre o seu nome no Passeio da Desventura, o reverso do Passeio da Fama onde celebridades do mundo do espectáculo imortalizaram o seu nome em Hollywood. Desde então, cada vez que saia de casa olhava para a marca das suas pegadas, tentando adivinhar que novas desventuras lhe poderia trazer o novo dia.

3 era o número de pessoas necessárias para fazer uma menage a trois, mais concretamente a sua primeira e única namorada e os seus dois melhores amigos de quando estudava em Lisboa. Armando Rifa surpreendera-os inesperadamente no seu quarto num dia em que o professor faltara. Abrira a porta, olhara estupefacto para eles, eles pararam um segundo a olhá-lo, mais aborrecidos pela interrupção do que propriamente culpados, e depois continuaram no alegre convívio que pelos vistos já se arrastava há uns tempos. Armando Rifa fechou a porta sem dizer uma palavra e foi sentar-se na sala à espera. Após a namorada e os amigos terem saído do quarto, Armando foi arrumar as suas coisas, abandonando desse modo aquele apartamento para nunca mais falar com qualquer um deles.

4 era o número de horas passadas por Armando Rifa à espera que alguém chegasse a seguir a ter sido atropelado, fazia agora uns três anos, por um condutor fugitivo que lhe fizera um traumatismo craniano, partira as duas pernas, um braço e várias costelas, isto sem falar no nunca mais acabar de pequenas escoriações que o atiraram para o hospital durante… mas isso já é outro número.

5 era o número de dias de suspensão que Armando Rifa apanhara no 9º ano depois de, entusiasmado com a brincadeira, ter atirado uma bola de papel amarrotado a um colega que, mais por manifesta falta de sorte do que por efectiva falta de pontaria, acabara por acertar em cheio no olho do professor de História, que, por acaso, ia a passar na linha de tiro. Os dias de suspensão foram o menos, o pior é que, ao invés do incidente lhe granjear admiração por parte dos colegas e das miúdas, colara-lhe definitivamente o rótulo de “falhado” na testa “Aquele totó nem portar-se mal como deve ser consegue!”.

6 era o número de meses que Armando Rifa passara no hospital depois do tal atropelamento e fuga.

7 era o número de vezes que Armando Rifa tentara abordar a sua grande paixão da adolescência. Por sete penosas ocasiões a aguardara à saída da escola… A primeira no 6º ano e a última no 12º… Tentava falar com ela pelo menos uma vez por ano lectivo, explicar que não era apenas um tarado obcecado com as generosas formas do corpo, que conseguia ver a beleza dela muito para além das expressões do seu rosto, que alcançava a alma dela nos olhares furtivos que trocavam em praticamente todos os intervalos, que o destino de ambos estava escrito nas estrelas… Sete vezes Armando Rifa esperara a sua amada secreta junto ao portão da escola, aguardando que ela surgisse lá ao fundo do edíficio onde tinha aulas, partindo então resolutamente na sua direcção. Mas assim que se começava a aproximar o seu coração acelerava de tal forma que parecia ir explodir, a sua pele ruborizava-se tanto que parecia ter queimaduras de terceiro grau por todo o corpo, as pernas e os braços começavam a tremer como se não houvesse amanhã e a voz… bem, a voz sumia-se sem deixar qualquer rasto. E lá fingia Armando Rifa mais uma vez que afinal ia apenas de passagem, cruzando-se casualmente com ela. Assim, continuaria a admirá-la de longe por nova e indeterminada temporada, até que a dor, ou a ausência, ou o aproximar das férias do verão que durante três longos meses sempre os separava, ou sei lá o quê, o obrigavam a tomar a resolução de ainda uma outra vez tentar ir falar com ela. E isto arrastou-se, tentativa falhada após tentativa falhada, ano lectivo após ano lectivo, até que Armando Rifa terminou o secundário e foi estudar para Lisboa. Nunca mais tornara a ver o grande amor da sua juventude. Que seria feito dela hoje? A que portão a poderia esperar agora se alguma vez a voltasse a encontrar?

8 era o número de vezes que Armando Rifa já tinha batido com o carro.

9 era o número de vezes que Armando Rifa fora assaltado pelo mesmo ladrão enquanto universitário. Armando bem tentava andar sempre de olho bem aberto: ia olhando para aqui e para ali e volta e meia lá detectava o sujeito andrajoso e de mau aspecto a segui-lo. Quando havia gente por perto deixava-se estar muito quietinho e parado no meio da rua, à espera que o individuo se fartasse de esperar e fosse atrás doutra eventual vitima. Resultava quase sempre, mas é claro que quando o malfeitor o apanhasse da próxima vez se encarregaria de, além de o roubar, lhe dar meia dúzia de estalos e pontapés. Entretanto Armando Rifa licenciara-se e voltara para casa. Só por isso é que este número não é um pouco maior. Mas de qualquer forma este não fora o primeiro e certamente não seria o último fanfarrão que havia de sugar o que de melhor ainda existia dentro de Armando rifa.

10 era o número de pontapés que Armando Rifa levara no rabo em crianças depois de ter sido ignobilmente enganado pelos miúdos lá da rua. Os outros putos lá da rua sempre tinham tido inveja dos brinquedos de Armando. Basta dizer que eles brincavam com pistolas de pau e Armando com um sumptuoso revolver de plástico. Fosse por isso ou não, uma tarde houve em que resolveram abusar da ingenuidade do pequeno Armando Rifa. Estavam no barracão de ferramentas do pai de um colega de escola quando um dos miúdos disse “Olha esqueceste-te da tua pistola no parque.” Amando procurou em todos os lados e realmente não encontrava a pistola. E agora? O que é que os pais iam dizer? Armando não dissera que ia brincar com aqueles miúdos, afinal eles não gostavam nada disso. O que iriam dizer ao vê-lo voltar sem a pistola que fora tão cara? “Vamos lá buscá-la!” Sugeriu outro miúdo. Assim dito, assim feito. A meio do caminho o miúdo que o alertara para a falta do brinquedo disse “Mas a pistola estava lá no barracão em cima da arca de madeira!” E Armando “Não estava não, eu olhei para lá!” E o outro “Olha que estava.” E Armando “Estou-te a dizer que não estava!” E o outro disse “Então fazemos uma aposta. Vamos lá ver. Se a pistola estiver lá deixas-me dar-te 10 pontapés no cu. Se não estiver dás-me tu 10 pontapés no cu. Combinado?” Combinadíssimo! Regressaram. E não é que a pistola estava mesmo lá!? Foi já com as mãos apoiadas na tal arca de madeira e o rabo bem esticado que Armando compreendeu a pequena conspiração de que fora vítima. Tinham sido eles a esconder a pistola, para agora se rirem enquanto lhe iam dando pontapés no rabo. Quando voltava a casa nessa noite, Armando não sabia se as lágrimas eram mais de humilhação se da dor no traseiro. Armando compreendeu que realmente os pais tinham razão, que aqueles amigos não lhe serviam, mas agora a partir daí ia brincar com quem?

11 era o número de letras de “LAVA-ME PORCO”, letras que Armando Rifa resolvera inofensivamente escrever num carro coberto de pó estacionado à porta da escola, ao mesmo tempo que esperava pelo autocarro para ir para casa. Andava para aí no 7º ano. 11 deve ter sido também o número de bofetadas que apanhara do dono do carro... O automóvel, um Fiat Punto cinzento (nunca mais se esquecera), era dum dos professores da escola. Surpreendendo Armando em flagrante delito, aproximara-se por trás e pregara-lhe a primeira bofetada estava ele ainda de costas. Voltara-se, espantado, pensando que fosse um dos colegas mais velhos a meter-se consigo. Imaginem a surpresa do rapazinho quando deparou com aquele homem de olhar feroz que o esbofeteava repetidamente. Armando voltou-se para o vidro, apagou as letras com a manga e afastou-se do carro esmagado pelo olhar de todos os colegas e do professor. Será que o seu grande amor da adolescência assistira àquele deprimente espectáculo? Ainda hoje Armando Rifa não sabia muito bem porque decidira escrever aquilo no carro. No fundo parecera-lhe apenas uma brincadeira inocente, mas… qual será a verdadeira diferença entre a inocência e a perversidade? E o que é que quer dizer verdadeiramente o adágio popular “cada um tem aquilo que merece”? Será que não basta tentar ter uma vida pacífica e equilibrada? Não, se calhar é mesmo preciso conhecer o mal para saber reconhecer o bem. Se os pais de Armando Rifa não o tivessem protegido da maneira ultra-protectora que tinham feito, talvez fosse ele bem mais expedito e desembaraçado para resolver todos os seus problemas! Afinal os problemas não existem, há apenas situações – os problemas são o medo em lidar com essas situações. O odor do medo voa mais alto e mais longe do que o Albatroz, atraindo toda a sorte de predadores. Ah!, se tivessem ensinado Armando a lidar com a mesquinhez e corrupção do mundo… Ou talvez não… Quem sabe se Armando Rifa não nascera simplesmente debaixo do signo de uma má estrela… A sua missão neste mundo talvez não fosse outra que não aprender a lidar com as situações do seu dia a dia… Não lhe serviria de nada escrever no vidro empoeirado do seu carro “RIFO A MINHA VIDA, CADA BILHETE APENAS 1 CONTRATEMPO”, pois parecia-lhe que o prémio não teria grande saída. De qualquer forma ainda não era capaz de escrever o que quer que fosse no vidro dum automóvel. Ainda há dias Armando Rifa se rira a bom rir ao ler no vidro traseiro do carro dum colega de trabalho lá na empresa do pai “EU POUPO ÁGUA”, um slogan bem adequado às preocupações ambientais muito em voga por estes dias. Pensara até escrever o mesmo no seu vidro traseiro, como piada, mas assim que tocara com o dedo na poeira acumulada no vidro um suor frio escorreu-lhe pela espinha abaixo!…

Enfim… 11 era o número de letras de “LAVA-ME PORCO”…

Armando Rifa poderia passar aqui o resto do dia a recordar os épicos e heróicos azares de que era feita a sua vida, mas já estava cansado de os estar sempre a puxar para o momento presente e o melhor presente que lhe poderiam dar naquele momento seria precisamente apagarem-lhe da mente tão pesada e indesejada herança.

Armando Rifa sabia que a sorte lhe era madrasta, só continuava a não compreender porque é que o azar havia de insistir em manter consigo uma tão reprovável e antinatural relação de incesto.