Terça-feira, Novembro 01, 2005

NOTÍCIAS DO ALÉM


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Sempre acreditei que a morte não era nada de verdadeiramente preocupante. Para mim a morte seria simplesmente voltar a ser o que eu era antes de nascer.

Nunca ninguém me viu chorar em funeral algum. Estava triste, pois com certeza que estava, mas apenas pela constatação de que jamais voltaria a estar com aquela pessoa em particular, não porque achasse que a sua morte tivesse sido uma grande injustiça ou uma tragédia sem precedentes na história da humanidade.

Foi por isso algo constrangedor ver como alguns dos meus amigos e familiares choravam desalmadamente no meu funeral.

Todavia, como dizem os vivos, a vida continua e, acrescento eu, o tempo nunca pára – aliás como poderia parar uma coisa que na realidade não existe? Mas isso é algo que seria demasiado complicado de explicar para as vossas cabecinhas.

O certo é que depois do meu funeral dei comigo entregue a um tédio de morte – desculpem a piada que alguns poderão achar de mau gosto, mas aqui o morto sou eu, logo eu seria o único que poderia ficar legitimamente melindrado.


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Tenho de confessar uma coisa: apesar de me ter notabilizado como jornalista o meu sonho de criança era ser humorista. Calculo que isto seja uma grande surpresa para alguns de vós. Tenho de admitir que de todos os apresentadores de telejornal que conheci, eu era o mais sisudo e o menos simpático, mas, por mais paradoxal que isto possa soar, a razão prendia-se mesmo com essa minha falhada vocação de humorista. Se eu tinha de contrariar a tendência natural para dizer piadas, o melhor seria não deixar escapar nem sequer um sorriso. É que apresentar o telejornal é uma coisa séria, e uma graçola inoportuna entre uma notícia sobre um atentado terrorista em Israel e outra acerca da queda dum avião nas Filipinas seria a morte do artista… Ups, perdão. Lá me saiu outra piadinha de gosto duvidoso. No entanto, se não pudermos fazer um ou outro gracejo, isto de estar morto torna-se uma chatice de morte… Eh! Eh! Eh! Desculpem, mais uma vez.

Seja como for, esta é a minha última reportagem para o mundo dos vivos. Recebi uma autorização para me dirigir à nação uma última vez. E que melhor data para o fazer que não a noite de Halloween? Em jeito de despedida, vá lá.

Sei que estava a fazer uma reportagem de guerra em directo e no minuto seguinte, sem perceber muito bem o que acontecera, POF!, estava morto.

Fiquei um bocado assarapantado com aquilo, como será fácil de imaginar. Quando dei por mim recomposto, já estava a decorrer o meu enterro em Portugal. Entretive-me dessa forma por algum tempo, mas, quando toda a gente se foi embora, fiquei sem nada para fazer. Resolvi então ir visitar alguns dos meus conhecidos. Ainda que não me vissem nem pudessem falar comigo, ao menos estava ocupado com alguma coisa.

Só que entretanto cansei-me de averiguar o que os meus amigos faziam quando à sua volta não havia vivalma… Eh! Eh! Eh! Desculpem outra vez!

Porém, acreditem numa coisa: só ficamos a conhecer verdadeiramente as pessoas quando vemos o que elas fazem quando não está ninguém à volta delas. Mas podem estar descansados que eu não conto nada a ninguém. A minha boca é um tumulo… Ih! Ih! Ih! Desculpem.


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De qualquer maneira, depois de ter assistido à minha missa de sétimo dia e farto de cirandar para aqui e para ali, na tão portuguesa ocupação de andar por aí, resolvi ver como é que a minha a minha mulher… digo a minha viúva, estava a pensar decorar a minha campa. Mas coitada, não sei se por causa do desgosto ou não, não começou nada bem o projecto. Então não é que escolheu uma fotografia em que eu parecia que já estava morto e ainda não tinha recebido o postal?! Ah! Ah! Ah! Desculpem, acho que tenho mesmo de moderar este sentido de humor. Mas, por outro lado, uma das vantagens de estar morto é poder fazer e dizer o que me apetece sem pensar no que é que o editor e os telespectadores vão pensar!

Agora a falar a sério… A escolha da foto foi tão infeliz que eu nem quis ver a campa e vim-me embora.

Imagino o que está a passar pelas vossas cabeças neste momento: então mas este gajo podia estar aqui a revelar-nos como é que é a morte, a última fronteira, o outro lado, e em vez disso está para ali só com conversas de chacha? Então e o paraíso e o inferno? Existem? Devemos acreditar na Reincarnação? No lugar de resolver de vez a maior inquietação da história da humanidade, está para ali só com piadas de gosto duvidoso! Mas qual é o problema dele?

Pois, pois…

O meu problema, caros telespectadores, é sono. Desde que morri ainda não consegui ter uma noite de sono decente. Mas hoje estou com tanto sono que acho que vou dormir com os anjinhos…

Ah! Ah! Ah!

Pronto foi a última, prometo.


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De qualquer forma tenho de fechar o apontamento de reportagem, o tempo de satélite está mesmo a acabar e hoje anda muita bruxaria no ar. Está na hora de me despedir. Tenham lá paciência. Gosto muito de vocês, mas a minha vida não é isto. Eh! Eh! Eh! Desculpem. Eu sei que tinha prometido, mas não resisti. Agora é que acabou, definitivamente. Ih! Ih! Ih! Pronto… Pronto…

Bem… Como terminar a minha intervenção? Como fechar um directo sobre a morte, ela que é vista como um fim em si próprio?

A única forma que me ocorre é ser redundante, acabando exactamente da mesma forma como tinha começado… Até qualquer dia e desculpem qualquer coisinha.

Sempre acreditei que a morte não era nada de verdadeiramente preocupante. Para mim a morte seria simplesmente voltar a ser o que eu era antes de nascer.