
A NOITE CÉU

Anoiteceu.
A noite céu…
Finalmente o dia terminou.
E então se este foi um dia comprido!
Foi um dia tão comprido que se confunde com as últimas semanas, últimos meses, últimos anos.
Foram mesmo dias ou meros momentos dentro do mesmo dia?
É difícil dizer.
Neste meio tempo, houve dias felizes, dias tristes, dias assim assim.
Vejo dias de todos os tamanhos e feitios no espelho que reflecte a minha imagem de mim.
Vejo-me, lembro-me de mim e parece que estive sempre aqui, a provar os dias como quem experimenta peças de roupa.
Mas todos esses dias foram um dia só – foram este dia que agora termina, este dia que agora desagua na infalibilidade e infatigabilidade do rio chamado Tempo.
Eu sou apenas mais um afluente sem nome ou identidade desse curso mágico que não tem principio nem fim.
Bem vindo a mim.
Recebo-me como uma hóstia consagrada pela noite que se avizinha.
Anoiteceu.
O dia terminou.
Foram muitos cafés, talvez demasiada cafeína, para me aguentar em pé até esta hora.
Cafeína em excesso em duelo directo com um sono ainda mais excessivo.
Agora é chegado o momento de deitar o meu corpo sobre esse leito translúcido que me vai afagar como uma segunda pele, debaixo de um céu de todas as cores.
A escuridão absoluta é sempre precedida de todas as cores.
É bom poder adormecer com todas as cores a pesar-nos as pálpebras antes do luto pelo dia que morre… o sétimo sono é a missa de sétimo dia desse conspirador secreto que nos codificou a vida.


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