Terça-feira, Novembro 08, 2005


DO OUTRO LADO DO SOM Posted by Picasa

Paulo Ansioso estava em casa, sentado na sua poltrona preferida. Via a desoras o jogo de futebol que deixara o vídeo programado para gravar. Fora uma autêntica odisseia conseguir chegar a casa sem saber o resultado. Tivera o cuidado de não ligar o rádio ao entrar no Mercedes, depois de sair do emprego no fim de mais um dia completamente extenuante. A sua vida tornara-se uma autêntica maratona de trabalho, mas estava prestes a conquistar mais um cliente valiosíssimo para empresa. Se fosse bem sucedido, certamente seria promovido. A sê-lo, aconteceria pela segunda vez no ano. A caminho de casa, passara pelo McDrive. Não olhara pela janela nem ao encomendar nem ao pagar, não fosse haver alguma televisão lá dentro a mostrar o jogo. Finalmente, chegado a casa, desligara o alarme e devorara o hambúrguer a coca-cola e as batatas fritas. Depois de arrotar três vezes olhara para o relógio. Não havia dúvida, o jogo já terminara. Deixara a cassete a rebobinar e fora despir o fato e a gravata e vestir o pijama e o roupão e calçar as pantufas. Ligara a televisão e carregara no PLAY.

Enfim podia respirar fundo.

O primeiro quarto de hora decorreu sem problemas. Por volta dos dezassete minutos, ainda com o resultado em zero a zero, Paulo, Ansioso de nome e de natureza, julgou ouvir um ruído qualquer no compartimento do lado…

Mas como poderia isso ser se estava sozinho em casa e vivia numa vivenda relativamente isolada? Paulo pegou no comando remoto e baixou o volume 12, 11, 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, até ao 0.

Atingido o zero pressionava ainda insistentemente o botão < do som.

Então pensou no género de som que sairia das colunas da sua caríssima televisão último modelo se o som continuasse a descer depois do 0, escalando -1, -2, -3, -4, -5, -6, -7, -8, -9, -10, -11, -12?

O que ouviria Paulo Ansioso se aquele televisor fosse sofisticado a ponto de tornar audível o lado negativo do som?

Então, sem que nada o fizesse prever, o ruído na divisão ao lado repetiu-se.

Desta vez não havia margem para dúvidas.

Paulo comentou de si para si:

– No lado inverso do som escondem-se todas as outras vidas que eu poderia ter tido, mas por inépcia, omissão ou mau sentido de oportunidade fui pondo de parte até me encontrar reduzido ao que sou hoje. O que soa agora no quarto ao lado? A verdade? O amor? A amizade? Um desígnio para a minha existência? O que fazer quando as vidas que não tivemos resolvem vir em nosso encalço para nos assombrar?

Ditas estas palavras, Paulo Ansioso levantou-se da poltrona, abriu estore e janela, saltou o beiral, atravessou do jardim até à estrada e abandonou aquela casa para nunca mais voltar.