
ANGULO

Às vezes sinto-me como uma árvore presa à terra.
É certo que eu posso saltar, projectar-me no ar. Mas de que me serve, se logo torno a cair sobre os meus pés? Ainda mal levantei voo e já fui devolvido à minha sombra.
A minha sombra é a raiz que me prende à terra.
É urgente denunciar esse complot entre luz e trevas, manietando sol e sombra numa guerra sem fim da qual eu sou um dano colateral.
A minha sombra prende-me à terra
Se pudesse erguer-me no ar e despistá-la, como o herói de um filme policial despista o carro que o segue, seria livre tal qual o albatroz que cruza os oceanos e só vê a sua sombra quando episodicamente desce das alturas para poisar na terra.
Assim, tenho de me contentar em seguir em frente, lançando um olhar de soslaio para a minha sombra, seguindo-me por toda a parte no seu fechado ângulo de 90 graus, como uma bola de ferro acorrentada ao tornozelo do prisioneiro.
Se eu fosse livre, como o albatroz poderia quebrar acorrente da minha vida, lançando-me aos céus e regressando apenas durante a escuridão da noite, enquanto o meu carcereiro dormisse o seu sono intranquilo.
Dar uma volta de 360 graus é ficar no mesmo sítio com a vantagem de conhecer tudo o que nos rodeia, mas será que isso, tão logo o alcançasse, faria de mim uma pessoa mais feliz?


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