Terça-feira, Outubro 04, 2005


TRONCADA Posted by Picasa

Conta-se uma lenda deveras curiosa na aldeia imaginária de Tenem. Reza a tradição que um homem muito bom teria vendido a alma ao diabo.
A razão precisa por que o fez perde-se nos anais do tempo. Hoje restam apenas algumas suposições: há quem jure a pés juntos que o fez em troca do amor de uma bela mulher, outros garantem que desse modo esperava obter a vida eterna, outros alegam que o teria feito contra a entrega duma pilha de ouro que estará enterrada no bosque envolvente (estes são fáceis de reconhecer – andam sempre com uma enxada às costas) e os demais acreditam que o negócio teve por única explicação o facto de o nosso homem, cansado de ser bom, mas incapaz de fazer o mal, ter escolhido reservar desde logo umas águas furtadas no inferno.
A verdade é que, apesar do contrato ter sido impecavelmente redigido pelo mais brilhante dos estagiários dos Serviços Administrativos do Além, e de uma análise de sangue e o testemunho dum especialista em caligrafia corroborarem duplamente a assinatura do outorgante que vendia, concluiu-se que o tal homem não poderia entrar no inferno.
Esta situação, surpreendentemente, não decorria de qualquer impedimento legal: era somente um problema de ordem técnica – por que pecados poderia ele ser castigado?
Lá está, este era o busílis da questão.
Afinal parece que não basta vender a alma ao diabo para assegurar um lugarzinho no inferno – é preciso praticar inequivocamente o mal, o que dito desta maneira me parece bastante ajustado.
Ora até aqui, tudo muito bem.
Se o homem não pode entrar no inferno porque é bom demais, reencaminha-se para o paraíso, certo?
Errado.
O facto de ter celebrado o contrato com o diabo fechou-lhe também as portas do paraíso.
Seguiu-se, como é de imaginar, um impasse burocrático sem precedentes. O diabo a tentar fazer valer os seus direitos e o representante do paraíso a dizer que não podia receber o nosso homem nem sequer no purgatório.
O imbróglio judicial foi passando de departamento em departamento nos Serviços Administrativos do Além, arrastando-se penosamente sem que alguém o resolvesse.
Entretanto, para cúmulo dos azares, o homem acabou por morrer.
As autoridades competentes acordaram então numa solução de compromisso que resolvia temporariamente a questão: trancaram a alma desse homem de que falamos no tronco duma certa e determinada árvore.
Era uma solução provisória, esperando que finalmente viesse uma decisão de última instância que desbloqueasse esta delicada contenda.
Só que, como escusado será dizer, a eternidade é muito comprida.
E até hoje lá continua a alma do pobre homem trancada dentro do tronco… ou devo dizer troncada?