Domingo, Outubro 09, 2005


O ESTRANHO CASO DO PESCADOR QUE ENJOAVA NO MAR Posted by Picasa

Tem estado um tempo agradável e soalheiro. Os dias já são um pouco frios, mas o sol ainda é quente e aconchegante. Nota-se perfeitamente que estamos a atravessar a passagem de testemunho do Verão para o Outono.

Tem estado o género de dias que convidam a um passeio até à beira mar, à Nazaré, por exemplo, e, quem sabe, a uma caminhada com a namorada pelo molhe sul do porto de abrigo.

E foi assim, e até porque os dias ainda duravam quanto bastasse para justificar a viagem até à costa depois do trabalho, que o rapaz de que vos falar travou conhecimento com o pescador que enjoava no mar.

Esta insólita personagem colocou-se ao lado do rapaz precisamente quando este observava a entrada no porto de abrigo de um arrastão que regressava da faina.

Nesse momento, a namorada fora buscar o casaco ao carro, já que afinal estava mais fresco do que ela esperava.

De princípio, o rapaz não deu grande importância ao desconhecido. Limitou-se a aceitar silenciosamente a sua companhia, mas logo o estranho, um homem de meia-idade, vestindo preto da cabeça aos pés, comentou com ar de entendido:

- Não tiveram sorte. Vêm duas ou três gaivotas a acompanhá-los, o que quer dizer que não apanharam muito peixe.

O rapaz assentiu com a cabeça, disfarçando a nítida contrariedade que sentia por ver assim invadida a sua privacidade. Afinal ele tinha vindo até ali para proporcionar um bom momento a si próprio e à namorada, não para ouvir histórias da insignificante vida dos outros. “Se não lhe der conversa pode ser que ele siga o seu caminho e me deixe em paz.”, pensou. Mas pensou mal, como o intruso logo fez questão de lho demonstrar:

- E amanhã também não apanham nada, que o tempo vai mudar.

Ora isto já interessou mais ao rapaz. Sempre nutrira uma fascínio especial por aqueles que têm a lata de fazer este género de previsões em público, sobretudo quando posteriormente estes vaticínios se vinham a revelar um total e completo fiasco.

- Então o que o leva dizer isso? – Perguntou o rapaz.

- Está a ver aquelas nuvens? – Apontou o homem.

- Sim, o que têm? – O rapaz encolheu os ombros.

- Estão a ir para cima, logo o vento vem de sul, o que é a mesma coisa que dizer que vem aí mau tempo. – Esclareceu o intruso.

- Mas isso não tem sentido – argumentou o rapaz -, se o vento vem de sul, onde há calor, pela lógica devia trazer bom tempo.

- A lógica raras vezes se aplica quando se fala da natureza… - Comentou, satisfeito o homem. - É certo que se trata de um paradoxo, mas é desse modo que as coisas se passam: quando o vento é sul, anuncia o mau tempo, pelo contrário, se o vento é norte, traz consigo o bom tempo.

- Curioso… - Observou o rapaz, pouco convencido, mas nem por isso querendo ofender o sujeito, mesmo porque apesar de já não ser muito novo, a sua fisionomia continuava a impor respeito. E para encobrir a descrença naquilo que lhe diziam, fez a seguinte pergunta – Então e o senhor é pescador?

- Não, hoje não. – Sorriu o homem. - Fui-o em tempos.

- Está reformado? – Quis o rapaz saber. Agora já bastante mais interessado naquela estranha figura vestindo negro da cabeça aos pés.

- Em certa medida poderá dizê-lo. - Riu-se o outro com gosto.

- Então em que ficamos? – Franziu o rapaz o sobrolho, não conseguindo disfarçar subitamente uma desconfiança emergente.

- A verdade é que eu só andei três dias ao mar. – Esclareceu o homem.

- Três dias? – Espantou-se o rapaz.

- Sim. Como pode ver, não serei o lobo do mar com as melhores histórias e as mais excitantes aventuras para contar.

- Ainda assim, sou todo ouvidos. – Incentivou-o o rapaz.

- A minha história é muito simples. Filho e neto de pescadores, não poderia esperar outro destino que não esse. E, na realidade, essa perspectiva não me desagradava. Muito pelo contrário: mal podia esperar pela minha primeira faina.

- E então o que se passou? – Apressava o rapaz.

- Vou contar o que aconteceu em cada um dos meus três dias de mar.

- Força! – Incentivou o mais novo.

- Então o primeiro dia… Eu tinha treze anos… - Começou enlevado, com o olhar perdido no horizonte bem mais enganador do tempo. – A minha mãe bem queria que eu continuasse na escola mais uns tempos, mas eu estava farto de letras e números, por isso convenci o meu pai a levar-me, para ver como eu me dava no mar. Não que eu tivesse dúvidas de alguma espécie acerca da minha adaptação à faina!… No primeiro dia – prosseguiu como que subitamente desperto dum sono intranquilo -, antes de entrar no barco, arranjei uma manobra de diversão dizendo que tinha esquecido qualquer coisa, e, contrariando as ordens expressas do meu pai, tomei um copo de leite numa taberna. Não percebi porque é que não podia comer nada, nem mesmo um copo de leite. Afinal, pelo que me tinham dito, partíamos às seis da manhã e só voltávamos de noite. É muito tempo para estar de estômago vazio, pensei eu na minha ingenuidade dos treze anos. O meu pai agarrou-me pela cintura e ergueu-me em peso desde a segurança da areia para o barco, que ainda não baloiçava ao sabor das ondas do mar. É que na altura não havia porto de abrigo, logo os barcos passavam a noite no areal. Para se aventurarem nas ondas eram empurradas por homens, para recolher da fúria do mar eram puxados por bois. E quando o barco começou a ser impelido para dentro das ondas, eu até nem estranhei muito aquele ainda suave baloiçar… Fez-me até lembrar o baloiço do pátio da escola que eu tanto disputara com os outros miúdos. Já quando toda a companha saltou para dentro do mar e começou a remar furiosamente em direcção ao alto mar, a coisa já piou mais fininho. Aí, é que eu percebi a razão de não poder comer nada e muito menos um copo de leite. O meu amigo sabe o que acontece quando o leite chega ao estômago? – Interrogou.

- Não faço ideia.- Confessou o rapaz algo ruborizado. O nosso rapaz detestava que lhe apontassem as suas pequenas ignorâncias… mesmo quando não tinha obrigação nenhuma de saber a resposta. Ficava sempre com a impressão que estavam a gozar com ele e a chamar-lhe burro de forma subtil e elegante.

- Eu também não sabia… - Sorriu o mais velho. – E descobri da pior maneira. O leite, assim que chega ao estômago, azeda. Fica verde. Se o vomitar imediatamente a seguir, ele sobe pela garganta acima queimando toda a carne por onde passa. Escusado será dizer que o barco teve de dar meia volta e vir pôr-me em terra. Estive três dias no hospital.

- Isso foi mau para começo… - Comentou o mais novo.

- É como diz o povo: aquilo que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. – Concordou o homem, acenando a cabeça em sinal de aprovação. – Bem… Passadas algumas semanas, já eu estava recuperado da garganta, lá consegui convencer o meu pai a levar-me outra vez. Foi o meu segundo dia… Evidentemente, dessa vez não bebi nem comi nada antes de sairmos. – Piscou o olho ao rapaz. – Lá fomos nós e eu sempre muito enjoado, mas a aguentar-me bem. Vi um navio muito grande à distância que logo identifiquei como um petroleiro. Estava eu ainda espantadíssimo com o tamanho do bicho quando o meu pai vocifera “Merda! Espero que não estejam a lavar os depósitos.” E não é que estavam mesmo? O amigo faz alguma ideia de como é que os petroleiros lavam os depósitos?

- Não faço a mínima ideia - Respondeu o rapaz contrariado por ser apanhado em falso pela segunda vez.

- Pois eu também não sabia. – Exclamou triunfante o interlocutor. - E novamente descobri da pior maneira. Ora fique sabendo que os petroleiros lavam os depósitos com gasóleo.

- Gasóleo??? – Espantou-se o rapaz.

- Sim, gasóleo. – Confirmou o homem. – Agora imagine o fedor que é apanhar aquele cheiro se o vento estiver de lá para cá… Uma coisa lhe garanto: não tem nada a ver com este maravilhoso cheiro da maresia. - E fechou os olhos, aspirando longamente o ar para dentro dos pulmões. - Agarrei-me à amurada, só parando de vomitar restos de comida que já lá deviam estar há anos nas minhas tripas, quando desfalecendo caí do barco, bati com a cabeça num remo e desmaiei. Só acordei no hospital, uma semana depois. O meu pai tinha-me ido buscar.

- Realmente que pouca sorte! – Lamentou-o o rapaz.

- Ora se foi! – Concordou o homem. – Mas logo que me senti restabelecido lá voltei à carga. Afinal a culpa agora não era minha. O meu pai acedeu em levar-me uma outra vez. E esse foi o meu terceiro dia no mar. Lá fomos nós e eu sempre muito enjoado, embora desta vez não tivesse nada no estômago, pois não comera nada de véspera. Fui-me aguentando… aguentando… aguentando… Até que às tantas dá-me para começar a vomitar, mas só vomitava um liquido estranho e incolor, pois realmente não tinha nada no estômago. Voltei a sentar-me, fiz tudo o que me iam mandando e volta e meia lá me chegava à borda e desatava a vomitar outra vez. A náusea era tão forte intensa que eu vomitava até o que não tinha no estômago. Isto uma, duas, três, quatro vezes. Já o meu pai se arreliava a pensar que eu o enganara de novo. E eu “Não pai, não comi, nada, juro.” E vou a quinta vez para a borda. Acabo de vomitar, vou a olhar para a água e vejo-a toda vermelha. Toco nos lábios e muito assustado viro-me para o meu pai. Estava a vomitar sangue. Lá tivemos de voltar mais uma vez. Só que ainda vomitei mais uma data de vezes antes de chegarmos a terra. Na verdade, devo ter vomitado metade do sangue que tinha no corpo, pois cheguei completamente inerte e inanimado. Só me lembro de acordar no hospital duas semanas depois. Estava um médico no quarto que se volta para mim e diz “Meu menino, se quiseres voltar a acordar muitas vezes, mar nunca mais.”

- E foi assim que terminou a sua carreira de pescador? – Quis saber o mais novo.

- Sim. Foi o canto do cisne, ou o canto do patinho feio pescador.

- E o cisne veio a ser o quê? – Perguntou o rapaz distraidamente, agora que o efeito novidade se perdera.

- Ora, essa é uma história muito comprida. – Coçou ele o cocuruto.

- Então? – Franziu o rapaz a testa, interessando-se novamente.

- Bem, aqueles meses seguintes foram muito maus para mim. Envergonhado, fugi da Nazaré. Fazia todo o tipo de trabalhos que me apareciam, gastando tudo o que ganhava em bebida. E uma noite, num bar já não sei muito bem aonde nem quando, acabei por conhecer a Mimi.

- A Mimi? – Perguntou o mais novo sobressaltando-se.

- Sim, não sei o que ela viu em mim. Na verdade, estava tão bebido que nem dei por a conhecer. Sei que acordei na manhã seguinte ao lado dela, e… foi amor à primeira vista… ou segunda… sei lá. Da primeira vez que a terei visto, estava demasiado bêbedo para dar conta do que quer que fosse. Mais tarde concluiria que, se eu enjoava no mar, ela estava enjoada da vida. Sabe… a Mimi era… como hei-de dizer… puta. E precisava de um guarda costa para proteger daqueles clientes fanfarrões que depois de se servirem do corpo dela não lhe queriam pagar. E era aí que eu entrava: esperava atrás da porta e se a coisa corria mal… ZÁS!

- Tornou-se chulo, então. – Exibiu um sorriso trocista o rapaz.

- Pois.… Se calhar é melhor chamar as coisas pelos nomes… - Assentiu o homem algo embaraçado.

- Mas qual era natureza da sua relação com a Mimi? Estritamente profissional ou às vezes recebia o pagamento doutas maneiras? – Picou-o o rapaz triunfante.

- Meu amigo – empertigou-se o homem -, eu a Mimi amamo-nos.

- O quê ela ainda está no activo? – Riu-se o rapaz com gosto.

- Sim, tanto está que o meu amigo recorreu aos serviços dela há… deixe cá ver… pelo menos para aí há duas semanas. – Coçou o homem o queixo.

O rapaz sentiu-se ficar vermelho como um tomate. Entretanto reparou que a namorada já saíra do carro e caminhava na direcção dele e do homem mais velho.
O homem seguiu-lhe o relancear nervoso e perguntou:

- É a sua namorada não é? Logo vi. Assim que vos vi chegar percebi imediatamente que eram amantes. O amor é tão bonito… Comove-me sempre ver um casalinho tão jovem e jovial como vocês. Não consigo deixar de me lembrar de mim e da Mimi quando tínhamos a vossa idade. O que acha que ela diria se soubesse que o meu amigo já conhece a minha Mimi?

- Cale-se, cale-se! – Exclamou o rapaz tão indignadamente como um sussurro o permite. – O que quer de mim?

- Apenas o que nos é devido, a mim e à Mimi. Afinal o meu amigo veio-se embora sem pagar o servicinho, não foi? Eu estava na sala ao lado e teria falado imediatamente consigo, mas por azar nesse dia estava a ver um filme muito interessante na televisão. Ainda comecei a ver as esquisitices que o meu amigo pediu à minha Mimi para fazer, mas já vi tantas esquisitices que optei por ver antes o filme. E se o interrompia no momento em que o meu amigo se pôs deselegantemente na alheta, perdia o fio à meada. Porém eu nunca me esqueço duma cara… Daí que não foi muito difícil localizá-lo.

- Mas você vê enquanto… - Exclamou o rapaz estupefacto, calando-se ao ver que a namorada já estava quase, quase ao pé deles. E num tom de voz mais baixo, debitou rancorosamente – Você é doente.

- E para tratar da minha doença preciso de todo o dinheiro que tenha neste momento na sua carteira. – Sorriu maliciosamente o homem.

- Mas é muito mais do que… - Indignava-se o mais novo.

- Juros, meu amigo, juros! – Interrompeu-o o homem. – Eu reparei que há bocado fez um levantamento muito avultado do Multibanco, por isso aconselho-o vivamente a que não me tente comer por parvo.

O rapaz tirou rapidamente a carteira do bolso traseiro das calças, retirando lá de dentro todas as notas e passando-as num gesto rápido, dissimulado e nervoso para as mãos do homem.

- Obrigado, amigo foi um prazer fazer negócios consigo. E assim sempre tive oportunidade de voltar tantos anos depois há minha terrinha. Se precisar de alguma coisa já sabe onde nos encontrar, a mim e à Mimi. – Disse o homem num murmúrio, no preciso momento em que a namorada do rapaz chegava junto deles. Ainda desejou a ambos – Que tudo corra pelo melhor. - Depois voltou as costas e afastou-se com um grande sorriso e colocando as mãos nos bolsos.

- Quem era? – Perguntou a namorada ao rapaz.

- Ninguém amor, era apenas um velho tonto que deixou de ser pescador porque enjoava no mar. – Disse o rapaz, passando o braço sobre o ombro da rapariga, disfarçando o melhor que conseguia a fúria que sentia naquele momento, mas já resignado. Convidou-a, com um movimento de olhos, a caminhar até à ponta do molhe. Ela concordou com um sorriso.

- Porque é que lhe deste aquele dinheiro todo? – Perguntou a rapariga.

- Tive pena dele. – Improvisou o rapaz.

A rapariga estacou o passo e cruzou os braços:

- Tiveste pena dele, tu?!? Não. Essa história está muito mal contada. Vais ter de me explicar isso tintim por tintim!

E o rapaz pensou “Foda-se!”