Terça-feira, Outubro 18, 2005


O AVISO Posted by Picasa

Certo dia, o servo e o tirano caminhavam lado a lado pela estrada que conduzia ao estaleiro da Torre de Babel.

Nisto, depararam-se com um muro que separava a via a meio.

O tirano repreendeu o servo:

- Porque usaste os materiais da Torre para construir os teus muros no meio da estrada que é de todos?

O servo explicou:

- Porque o melhor caminho nem sempre se faz pela segurança da estrada. Por vezes há que avançar cegamente através de veredas inexploradas, adentrando o território de bestas inimagináveis. Alturas há em que é apropriado deixar cortar os nossos braços em giestas, galgar rochas intransponíveis, cansar as pernas e estragar os sapatos, para alcançar o nosso destino. Há certos locais onde o bom senso e a bem-aventurança tomam direcções distintas Nessas confluências de percursos, que se antagonizam e complementam, é necessário deixar um marco que delimite muito concretamente onde começa e acaba o percurso e o não-percurso. Poderás pensar que este muro limita os teus passos… nem sonhas o quanto erras! Na verdade, este muro separa os teus pés, enviando cada um deles para a sua própria direcção: um dos teus pés seguirá estrada fora, o outro pé embrenhar-se-à mais e mais na selvagem escuridão da floresta. À medida que avançares verás que as tuas pernas ganharão uma elasticidade desconhecida e aumentarão de tamanho para poderem cobrir as áreas cada vez maiores cobertas pelos teus passos. Nesse momento verificarás que o mundo lá em baixo se tornou muito distante e pequeno e que as nuvens te penteiam os cabelos. Não tardará muito até esqueceres que em tempos desejaste construir uma torre que te levasse até às alturas que agora palmilhas sem dificuldade.

Nisto, ouviu-se um estrondo vindo desde o mais fundo dos abismos dos céus (que o céu é um oceano sem fundo, onde os pássaros desempenham o papel dos peixes e o ar é a água que todos bebemos), houve um clarão que cegou os caminhantes por um breve momento e quando a poeira assentou puderam ver que o muro jazia destruído sobre a terra.

O tirano congratulou-se:

- Eis como os céus zombam da pequenez do homem sem recursos. Agora apressemo-nos que os trabalhos na Torre não acompanham as nossas paragens no caminho.

Enquanto partia no encalço do tirano o servo concluiu:

- Um aviso só poderá ser tomado a sério quando o medo usar uma máscara que espelhe o nosso rosto…