Sábado, Outubro 22, 2005


DA COR E DOUTRAS MEMÓRIAS Posted by Picasa

Da cor e doutras memórias se veste o pincel do pintor na paleta da vida.

Eu pintar não sei, mas não me escasseia tinta e vontade para imortalizar numa tela impossível a memória viva das histórias que este verão escreverá dentro de nós… um espectro de cores e imagens que o tempo não poderá censurar nem a saudade conseguirá banir.

E era uma vez um dia que parecia nunca ir acabar. E era uma vez eu. E eras uma vez tu. E era uma vez o amor.

E quem sou eu? E quem és tu? E quem é o amor?

Do amor ainda nada vos poderei dizer, é demasiado cedo. Tu és tu. Eu sou eu. Nós somos aquele casalinho de miúdos, lembram-se? Aquele casal de miúdos que muitos de vocês admiraram pelo canto do olho durante um segundo, enquanto arrumavam atabalhoadamente a toalha na mochila e se preparavam para abandonar o areal após mais um dia de praia. Nós somos aquele miúdo e aquela miúda de pele dourada e olhos brilhantes que ficaram na praia até muito depois do anoitecer, como se acreditassem que o dia e, por arrastamento, o próprio verão, pudessem ser eternos.

Eu sou eu. Tu és tu. Nós somos nós. E o amor? Quem é o amor?

Sim, quem é o amor? Já alguém o viu de verdade? Qual é sua identidade secreta? Sim, leram bem, identidade secreta! Isto porque o amor só pode ser um desses mirabolantes super-heróis que devotam a sua vida a assegurar a paz e a ordem universal. Mas, por outro lado… Se o amor fosse um super-herói, para quê manter incógnita a sua real identidade? Do que terá medo o amor? O que teme o amor? Não andará o amor a enganar a humanidade desde os primórdios dos tempos? Não será o amor afinal um terrível e maquiavélico vilão? Hmm… não sei não. Se o amor não tivesse o que esconder, provavelmente não precisaria de manter desconhecido o seu alter ego. A melhor forma de dissipar esta dúvida seria descobri-lo e forçá-lo a revelar a sua verdadeira natureza! Alguém devia deitar mão à obra… Nunca tiveram vontade de ir sacar uma fotografia do amor à Internet e colocá-la num cartaz a dizer PROCURA-SE. OFERECE-SE RECOMPENSA A QUEM O APRESENTE VIVO OU MORTO. Não? Eu já, antes deste dia que parece nunca ir terminar. Aliás, eu estava convencido de que o amor tinha morrido. Só precisava de ver o seu cadáver para ter a prova definitiva. Além disso, sem o corpo morto do amor para expor na praça pública, como avisar o mundo desta terrível novidade? Obviamente que isto colocava uma série de outras questões práticas: se não sabemos quem é o amor, como poderemos saber se ele efectivamente morreu? Lá porque o amor deixou de dar notícias, isso não quer necessariamente dizer que tenha falecido. Por certo, ninguém acreditaria em mim. E eu continuava sem saber muito bem o que pensar. O mistério adensava-se… ou pelo menos mantinha-se tão irresolúvel como sempre o fora ao longo dos tempos.

Há quem diga que o amor não se explica, sente-se, mas, cá para mim, quem o dizia não sabia o que sentia… até tu chegares enfim, neste dia que parece nunca ir terminar.

Seja como for, do amor ainda nada vos poderei dizer… mas sei que nós somos nós, tu és tu, e que eu sou eu.

E, embora do amor, propriamente dito, ainda nada vos possa dizer, para mim amor é cor, e da cor sim, posso falar.

Da cor e doutras memórias se veste o pincel que mergulhei na paleta da vida. Da cor conheço o teu sorriso – com ele decorei o meu coração. De cores se mascaram as memórias, reservando o seu lugar na minha tela imaginária. Ora observa... Azul eram mar e céu – cores frias do tempo que nunca dá um passo atrás ou corrige os seus erros. Brilhante incandescente era o sol, entendendo um tapete de luz e sombra que recebeu com todas as honras o primeiro olhar (ora toma lá, dá cá) entre nós. Vermelho era o meu desejo – cor quente do teu beijo. Amarela – cor ferida – era a areia onde celebrámos o encontro de nossos corpos, lençóis incómodos que levaremos crivados ao nosso corpo quando abandonarmos, por fim, a praia, nesta noite que à semelhança de todas as outras noites lá terá de ter um final.

E de que cor é o amanhã?

Para já não quero pensar nisso. A felicidade dura apenas o tempo que demoramos a adormecer. O sono pesa na vida como o sonho pesa no sono. Por isso deixa-me só encostar a minha cabeça ao teu peito e adormecer ao ritmo suave da tua respiração, enquanto este dia não terminou realmente nem a noite começou verdadeiramente. Estou pronto para continuar a sonhar. Faz-me um favor e acorda-me quando acabar o verão.

Assim és tu. Assim sou eu. Assim somos nós. Assim é o amor.

E, no entanto, o negro, o cinzento e o branco (cores mortas) tentam invadir-me o quadro que ainda agora mal comecei a pincelar!

Assim eras era tu. Assim era eu. Assim éramos nós. Assim era o amor.

Pode ter-se a memória duma coisa que ainda não aconteceu?… Ou dito doutra maneira… pode guardar-se a memória duma coisa que já aconteceu tantas vezes que nos convencemos de que nunca aconteceu realmente?

E eras tu? Eras mesmo tu? Tu que hoje te deitas a meu lado sem um “boa noite” ao menos? E era eu? Era mesmo eu? Eu que tomei a tua mão e te conduzi ao altar sacrificial do amor? E éramos nós? Éramos mesmo nós? Nós que comemos solenemente, frente a frente, numa sala de jantar onde as cadeiras de filhos (miúdos já com a idade do nosso primeiro olhar) cavam a distância entre nós? E era o amor? Era mesmo o amor? Era. Era o amor… veio até nós num dia de verão que parecia nunca ir acabar, mas que, como tudo na vida, lá acabou finalmente, arrastando consigo o amor, que se enfiou mar adentro, partindo no encalço do sol, para não mais voltar.

Agora posso falar do amor… embora nada de concreto vos possa confiar.

Do amor nada posso dizer à excepção disto: o amor não sabe nadar. Se o deixarem entrar no mar, então, meus amigos, não o tornareis a ver. Bem poderão conjecturar e esboçar as mais diversas teorias acerca do destino do amor. Ter-se-à afogado? Conseguirá o amor respirar debaixo de água? Se consegue respirar debaixo de água, porque não correu o fundo de todos os oceanos e não nos surpreendeu a nascente no dia seguinte? O que aconteceu ao amor? Ter-se-à dedicado ao alpinismo submarino, andando até hoje a explorar as profundezas do fundo dos oceanos? Ninguém vos irá dizer. O mistério perdurará. De nada vos adiantará mergulhar em sua perseguição, pois o amor leva-vos já um avanço considerável. E bem escusado será perguntar a quem passa “O que é feito do amor?” A resposta será invariavelmente “Eu não sou daqui, vim cá só para passar o verão. Vou-me embora já amanhã.”

E foi assim um dia que parecia nunca ir acabar. E fui assim eu uma vez. E foste assim tu uma vez. E foi assim uma vez o amor.

Mas para já não quero pensar nisso. A felicidade dura apenas o tempo que demoramos a adormecer. O sonho pesa na vida como a noite pesa no entardecer. Por isso deixa-me só encostar a minha cabeça ao teu peito e adormecer ao ritmo suave da tua respiração, enquanto este verão não terminou realmente nem a vida começou verdadeiramente. Estou pronto para continuar a sonhar. Faz-me um favor e acorda-me quando a minha vida estiver prestes a acabar.