Quarta-feira, Outubro 12, 2005


CRÓNICA DO FIM DO MUNDO Posted by Picasa

A guerra que ditou o fim do mundo não foi jogada por altas patentes militares nem por líderes políticos autistas a partir de centros de comando ultra sofisticados escavados a quilómetros e quilómetros debaixo de montanhas ou de capitais de impérios decadentes.

Longe vão os tempos em que estrategas militares ordenavam o avanço suicida de tropas marchando alegremente ao ritmo dos tambores da guerra.

Que diriam disto Alexandre o Grande, Napoleão ou mesmo McArthur?

Os generais dos dias modernos urdem as suas maquinações desde gabinetes com ar condicionado nas sedes de multinacionais um pouco por todo o mundo.

Tanto abrigo atómico foi em vão escavado nos quentes anos da guerra fria!… Tanto medo pela eclosão duma III Guerra Mundial e, afinal, a desintegração e aniquilação de toda a civilização humana escondia-se no local mais inocente e insuspeito: na carteira de cada cidadão planetário.

Com efeito, o fim do mundo não foi provocado pelo deflagrar duma bomba atómica: deveu-se, isso sim, a uma quebra económica de dantescas proporções globais.

Foi no cenário duma Terra una e indivisível que a trama se desenrolou com o acompanhamento musical do tilintar de milhares de milhões de dólares, euros, libras, ienes, etc., etc., etc., que iam caindo para a goela devoradora da ganância.

Não houve naves a levantar voo levando consigo os colonos que espalhassem a semente da humanidade por esse universo fora… Não. Isso custaria dinheiro imprescindível para manter até às últimas a aparência de estabilidade nas bolsas de valores dos mais variados pólos económicos do mundo.

Lá longe, fora das povoações, nos campos, onde não havia compras de supermercado, contas de telefone, água, Internet, telefone e impostos para as carteiras de todos os tamanhos e feitios, chegou também a morte e a desolação.

A morte veio e colheu uma planta sem nome a uma morada sem rua nem código postal.

E agora é chegada a hora de sossegar os vossos olhos e descansar vossos corações: o mundo tal como o conhecemos não acabou ainda.

É neste ponto que se inflecte a narrativa e se inverte o sentido do nosso relato.

Mas para já fiquemos por aqui.

Um passo de cada vez, deixemos espaço ao destino para actuar: o amanhã tem ainda uma palavra a dizer e eu rezo aos céus para que venham e desmascarem brutalmente as minhas capacidades proféticas, reduzindo as minhas previsões à condição dum mero delírio verbal.

Para já, regozijem-se com a boa nova! Poderemos continuar a frequentar centros comerciais ao domingo, e a fazer créditos para comprar uma série de coisas que nos alugam como uma vã sensação de felicidade!

Mas voltemos à nossa lacónica historieta…

Não foi a Terra que exalou hoje o seu último suspiro. Quem deu por terminados os seus dias foi uma plantinha, um pobre e miserável vegetal, que se despediu hoje dessa dádiva sem nome próprio (apenas apelido) que é a vida. Despediu-se de todos nós uma plantinha, uma flor talvez… Não sei se o era. Não consigo distinguir a sua antiga identidade no destroço que agora se balança ao vento, como um último sinal de resistência de algo que não vive mais, mas é ainda consciência de mim.

E como eu lamento o seu fim!

Em verdade vos digo: todo o planeta morre sempre que perece a mais insignificante e desprezada das flores… a tristeza do mundo é afinal à imagem e semelhança da tristeza da humanidade.