
CRIAR ASAS E VOAR

Gostava de ter um barco. É cá uma coisa das minhas. Eu gostava de ter um barco. Não sei dizer muito bem porquê. Nenhum dos meus parentes, vivo ou morto, tem espírito de marinheiro. Nem sequer sei dizer que tipo de barco gostava de ter. Não sei se preferia um barco a remos ou a motor.
Só sei que gostava de ter um barco…
Queria um barco que me permitisse vogar livremente através das ondas desses mares sem fim.
Pensando melhor, convinha-me mais um barco a motor, que isso de explorar os mares sem fim já soa suficientemente cansativo sem ter de remar.
Adiante.
Gostava de ter um barco… mas acho difícil algum dia concretizar essa aspiração. Antes teria de aprender a nadar – não vá uma tempestade inesperada virar-me o barco!
Entretanto, enquanto me divido entre o desejo e o medo, vou gastando o meu tempo dando longos passeios pelo cais de embarque onde atracam os sonhos perdidos.
Foi numa dessas minhas deambulações que descobri a mais insuspeita e inesperada conspiração que a minha pobre imaginação algum dia poderia conceber.
Fui alertado para a alarmante novidade quando distraidamente reparei que uma das estacas de madeira que seguram o cais se gastara na ternura asfixiante do vaivém das ondas.
Isto pensei eu à primeira vista, assim como primeira impressão
Depois raciocinei… Gastou-se ou está a aproveitar a erosão para encobrir uma fuga iminente?
São lascas de madeira ou penas de asa sonhadas pela estaca?
Uma análise mais atenta revelou que aquilo que inicialmente pareciam lascas esculpidas pelos ventos e marés, faz, na realidade, parte de um engenhoso e audacioso plano de evasão…
O ardil é notável!
Não restam dúvidas: a estaca (e quem sabe todo o cais) apresta-se a, literalmente, criar asas e voar.
Aonde ancorarão futuramente os barcos que navegam por esse mundo fora?
E mais grave do que isso… Como baptizarei eu então o barco que ambiciono legar às ondas deste mundo? Pensei lançá-lo a estas águas que redemoinham na corrente eterna do ritmo do mundo, mas, afinal, parece-me bem que terei de o soltar céu acima, como um balão que se eleve fulgurantemente para vogar entre as nuvens.
Como baptizá-lo então?
Não vejo outro nome que não “Bem vindo a bordo”.
Mas não se preocupem… Momentos haverá em que eu descerei à terra, neste caso ao mar, para matar saudades.
E, nessa altura, não me esquecerei de vos convidar para dar uma voltinha na minha quimérica embarcação ... em nome dos bons velhos tempos.


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