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Conto do cartão de crédito e do poço dos desejos

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Nunca andava com trocos no bolso. Assim, constatou, com profunda consternação, que não poderia pedir o seu desejo no mais afamado poço dos desejos daquele país.
O que fazer? Não poderia voltar mais tarde, partia nessa noite. Não pretendia pedir uma moeda emprestada, pois a realização do desejo poderia bafejar o dono da moeda e não a si.
Num rompante resolveu a questão: abriu a carteira, voltou-se de costas, pensou com muita força no desejo, e atirou, sem olhar, a sua dádiva para o poço.
Talvez os benignos génios do poço aceitassem cartão de crédito.

Aterrisagem

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Foi uma folha, não uma borboleta, que veio a pairar pelos céus até me aterrar no colo.
Não me surpreende.
A alegria chega sempre pela frente, não tem nada a esconder.
Já o medo apanha-nos por trás. Da maior parte das vezes não o farejamos antes de nos tocar no ombro. O medo gosta de jogar às escondidas: é um artifício daqueles que não se sentem bem na própria pele - talvez um dia se esconda tão bem, que me esqueça onde o guardei.

Ilha de madeira

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Pinóquio#7 esperou que os humanos adormecessem e deslizou através da porta automática da sala de estar para a rua.
Moveu com cautela os membros agilizados de acordo com a aerodinâmica das tarefas domésticas. As articulações do robot de madeira rangiam: estalavam como lenhos no fogo, quais lágrimas feitas de som. As baterias de energia solar estavam quase descarregadas, o que lhe emperrava o funcionamento. Redobrou o cuidado nos movimentos da engrenagem de metal, controlada pelo chip: o coração electrónico, incrustado na placa no interior do peito.
A madrugada espreitava por cima do horizonte, empurrando com as pálpebras o negrume para o outro lado do globo, pestanejando as estrelas para longe.
Os olhos em LCD de retina transmitiamo deslumbrante panorama em directo para um lugar dentro do corpo de madeira que não o chip. Se Pinóquio#7 tivesse tivesse uma alma, onde a guardaria? Dentro dos punhos, para  a ter sempre à mão? Nos pés, para a levar a todo o lado? No peito, para nunca se ne…

Biografia duma língua de trapos

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Não sei nada, mas conto tudo.

Longe de casa

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Ao chegar a casa, Bé tinha por hábito deitar-se no sofá e olhar para cima. O tecto estava pintado de azul mar. Algo com a palavra areia no nome remetê-la-ia imediatamente para as férias, para as longas temporadas na casa de praia da família, mesmo que os sulcos e relevos da tinta de areia não lhe lembrassem um oceano fotografado a alta altitude.

Boiava no sofá a olhar para cima.

Pairava nas alturas a olhar para baixo.

Bé era absolutamente incapaz de resistir ao apelo do mar. O mar sabia-lhe a eternidade. Era a sopa sagrada de onde emergira toda a vida. Impossível voltar as costas ao vago murmúrio onde se escondia o convite ao abraço das ondas, ao beijo salgado daquela segunda pele a vogar por entre o vento e a força motriz das correntes.

A primeira coisa que fazia ao chegar à casa de praia era poisar a mala no quarto, despir-se, sair pela janela e correr através da duna, atirando-se de cabeça às vagas. Nadava até mar alto, deixando-se ficar embalada pelas ondas, como uma criança nos …

Sussurrar agudo

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A banda chamava-se Sussurrar agudo. Nome estranho para uma banda de death metal, cujo grotesco vocalista urrava palavras indistinguivelmente graves. Um dia o cantor apaixonou-se por um ninfeta de voz cristalina. Convidou-a para fazer os coros na banda. Os outros elementos do grupo atravessaram uma crise de identidade sonora. Foi o fim dos Sussurrar agudo. O casalinho mudou a imagem e a estética musical. Cantam hoje num coro religioso, nos tempos deixados livres pelo supermercado onde ambos trabalham, ela como caixa, ele como repositor.

O contador de histórias

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Contar histórias humaniza-nos. Faz parte dessa maravilhosa condição de ser humano. A grande diferença entre uma pessoa e um animal é essa: a capacidade de contar histórias.

O que tem em comum a música, o teatro, a pintura, a escultura, a arquitectura, a literatura, o cinema e a fotografia?

Não fazem ideia?

Vamos tentar outra vez.

O que tem em comum a sala de convívio dum lar de terceira idade, o refeitório duma fábrica, o pátio duma escola?

A resposta é simples: as histórias!

O que une as pessoas são as histórias. Quando paramos no meio do supermercado, ao reencontrar aquela pessoa que não víamos há séculos, fazê-mo-lo porque temos uma história em comum. Os clubes de futebol, os partidos políticos, as redes sociais não passam de desculpas para contarmos histórias uns aos outros. O desconhecido que nos detém no meio da rua, perguntando as horas ou a indicação duma direcção, passa a ter uma história em comum connosco …ou então deseja começar uma nova história de que sejamos a outra per…