Mensagens

Tantas vezes a fonte vai ao cântaro...

Imagem
Recusou sempre ter água canalizada em casa. Beber água era apenas uma desculpa para ir à fonte, tal como os pés não passavam duma desculpa para andar.

Nada se comparava ao prazer de ver o jorro cristalino a brilhar nos reflexos do sol. Sorver a água com os lábios não seria assim tão diferente de sorver a vida com o coração.

Quando por fim vieram uns homens da câmara para arranjar a fonte em ruínas, percebeu que estava morto há cem anos.

Alguns cântaros haviam perdido ali a asa, ele deixara lá a alma.


Esculturas rupestres

Imagem
Se todos os outros escolhiam desenhar, ele preferira esculpir a pedra da caverna que o clã habitava.
A amizade com o seu animal de estimação inspirara-o, porém, o que entusiasmou os cientistas, milénios depois, foram as pinturas de caçada, com o vermelho sangue a jorrar profusamente das feridas de presas e predadores.
Não deveria surpreender-se... Afinal, a memória privilegia a dor em detrimento do prazer, talvez na tola esperança de que, evocando a dor, esta nos esqueça futuramente. Muito se enganam! A dor é uma deusa ciumenta, nunca prescinde dos seus sacerdotes.

Sou tudo o que não sou quando o estou a ser

Imagem
É nos espaços vazios que sou aquilo que realmente sou.
Sou a linha férrea, escondida como uma inútil armadilha na imensidão da paisagem, à espera da passagem dum incauto comboio para apanhar a locomotiva e carruagem após carruagem, num fugaz momento de perfeição. Ou serei nesse preciso instante o hangar vazio de onde partiu a composição?...
Sou tudo o que não sou quando o estou a ser.


Ladrões

Imagem
Acudam! Acudam que fui roubado!
Onde estão as minhas vogais?
Que é feito das consoantes que ali estavam?
Letra a letra, me delapidaram os versos!

Ai de mim! As minhas ricas sílabas,
que tanto me custaram a ganhar!
Que tristeza, ver-me assim reduzido a monossílabos.
Nem o meu nome posso dizer agora!...

Ah, malvados ladrões de palavras!
Faltam-me já os adjectivos para vos invectivar!
Enfim…
Foram-se os advérbios, ficam os verbos.

Que esdrúxulo augúrio!
Acentuo-me gravemente,
com um gemido agudo.

E eis que volta a tratante!
Não, por favor…
Não me roubes mais palavras.


Se algumas palavras ferem,
outras há que curam.
Por favor não me tires mais palavras…

Deixa-me ao menos a poesia,
Não me confisques o sonho,
Poupa-me o amor
Não!
Espera!
Não leves essa!
Troco esta saudade por essa felicidade.

Ah! Pouca sorte a minha!

Arrebatas-me as palavras,
logo não me roubas o coração,
bela ladra de pensamentos.

Noé Grande não sabia nadar

Imagem
Noé Grande não sabia nadar, por isso andava sempre com um barco no bolso.
Como gostava muito de peixes, arranjou um aquário onde pudesse guardar um par de todas as espécies marinhas.
O maior aborrecimento da vida de Noé era não poder mergulhar por entre a sua colecção de eternidades.

Mensagem

Imagem
Só tu me podes ler… Mas será que me consegues ouvir? Será que me podes ver? Pensas que não te posso ver, enquanto lês estas palavras… Afinal, as letras não são olhos, certo? Será mesmo assim? Talvez as letras sejam a pupila, as palavras a íris e o fundo da página a esclera do olho. Talvez eu te leia da mesma forma que tu me lês. Duvidas? Então vamos fazer uma coisa. Afasta esta mensagem da tua vista, apenas o suficiente para não conseguires ler o conteúdo. Pode ser? Caminha para trás. Só mais um bocadinho… Perfeito! Agora consegues ver-me, não consegues? Consegues ver-me, tal como eu te vejo a ti.


***
(Escrito no âmbito dos desafios das Páginas Partilhadas grupo de escritores que se juntou para escrever textos relacionados com um tópico colectivo definido mensalmente)


1, 2, 3, Salva todos!

Imagem
...97, 98, 99, 100! Prontos ou não, lá vou eu!

Começo sempre por revistar o módulo do sistema aquapónico e o processador a energia solar da reciclagem de oxigénio. É isto que mantém vivos os sobreviventes da estação espacial Luna 02, por isso nunca é desligado. Se o sistema fosse abaixo, seria impossível voltar a ligá-lo. Posso esquecer-me de tudo, menos de verificar os níveis de autonomia deste compartimento. Espreito cautelosamente por detrás de cada aquário estanque e viveiro flutuante.

– Será que ele está aqui? – Vou dizendo teatralmente, sobre o pano de fundo de um risinho abafado, que localizei mal entrei na divisão. – Oh! Não, não está! Onde se terá escondido aquele malandreco? Ora deixa cá ver… Aha! Olha, também não está aqui… Ah Já sei! Aqui! Não… – Prolongo a comédia o tempo suficiente para não penalizar demasiadamente a sua ansiedade. – Tiago estou a ver-te debaixo do emaranhado de cabos!

– Oh, tia, descobres-me sempre! – O miúdo de 5 anos dá uma cambalhota em pleno ar e f…