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Sussurrar agudo

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A banda chamava-se Sussurrar agudo. Nome estranho para uma banda de death metal, cujo grotesco vocalista urrava palavras indistinguivelmente graves. Um dia o cantor apaixonou-se por um ninfeta de voz cristalina. Convidou-a para fazer os coros na banda. Os outros elementos do grupo atravessaram uma crise de identidade sonora. Foi o fim dos Sussurrar agudo. O casalinho mudou a imagem e a estética musical. Cantam hoje num coro religioso, nos tempos deixados livres pelo supermercado onde ambos trabalham, ela como caixa, ele como repositor.

O contador de histórias

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Contar histórias humaniza-nos. Faz parte dessa maravilhosa condição de ser humano. A grande diferença entre uma pessoa e um animal é essa: a capacidade de contar histórias.

O que tem em comum a música, o teatro, a pintura, a escultura, a arquitectura, a literatura, o cinema e a fotografia?

Não fazem ideia?

Vamos tentar outra vez.

O que tem em comum a sala de convívio dum lar de terceira idade, o refeitório duma fábrica, o pátio duma escola?

A resposta é simples: as histórias!

O que une as pessoas são as histórias. Quando paramos no meio do supermercado, ao reencontrar aquela pessoa que não víamos há séculos, fazê-mo-lo porque temos uma história em comum. Os clubes de futebol, os partidos políticos, as redes sociais não passam de desculpas para contarmos histórias uns aos outros. O desconhecido que nos detém no meio da rua, perguntando as horas ou a indicação duma direcção, passa a ter uma história em comum connosco …ou então deseja começar uma nova história de que sejamos a outra per…

Lembro-me de quando tu deixaste de ver telenovelas

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O Caçador de Apocalipses

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Por certo não duvidarão da minha palavra, se vos afiançar que o reencontrei naquele titânico edifício de vidro e metal que deteve o epíteto de maior centro comercial da Europa durante parcos 6 meses.

Descobri-o inadvertidamente num pequeno átrio, no quiosque de venda de cartões de crédito duma famosa instituição financeira.

“Cartão de crédito na hora”, apregoava o insinuante letreiro luminoso.

Observei-o, prudentemente encoberto pela distância.

Era como ver-me ao espelho – o reverso do que sou: o melhor de mim, mas virado do avesso.

Um apocalipse continuava a assentar-lhe divinamente sobre os ombros… Bem vestido, modos agradáveis e o cabelo loiro cuidadosamente penteado para trás, malgrado as duas madeixas rebeldes logo acima da testa, memória de saliências que nenhum gel poderia desfazer. Havia uma lâmpada defeituoso no teto. Quando a luz piscava e a sombra mutilava a luz do corredor, a silhueta denunciá-lo-ia sem problemas a um observador mais atento. Isto se os visitantes não passassem …

Anatónio

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Anatónio era como lhe chamavam. Nascera com uma condição singular, onde o plural era rei e senhora. “Hermafrodita.” Dissera muito rapidamente o médico aos pais, como se tivesse medo de tropeçar na palavra. “O quê?” Engoliram em seco os pais. “Intersexualidade.” Complementou constrangido o médico, como se isso os esclarecesse melhor. O ar de perplexidade dos progenitores desenganou o médico, que pigarreou. O bebé era ao mesmo tempo homem e mulher. Não era Ana nem António. Era os dois simultaneamente, tanto por fora como por dentro. Poderia ficar grávida e ao mesmo tempo engravidar outra mulher. “E agora?” Entreolharam-se os pais. “Agora é esperar que a criança vá crescendo e defina qual é o seu sexo dominante. Quando isso acontecer, operamos.”
A criança cresceu. Ora Ana, ora António. Nos seus sonhos encontrava muitas vezes um menino e uma menina que poderiam ser seus irmãos. Eram os seus companheiros de brincadeira. Os pais não a deixavam sair de casa, não sabia porquê. Os seus únicos…

Aquário

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Ercília estava farta de ver o peixe sozinho no aquário.
Decidiu arranjar-lhe um companheiro.
Saiu para loja dos animais.
De repente teve uma branca, uma paleta de inconsciência onde caberiam todas as cores: o seu peixe era de que cor?
Tinha quase a certeza de que era vermelho… Levaria um doirado, para variar.
Ao chegar a casa reparou consternada que agora tinha dois peixes doirados.
– Nem tudo é mau, pensem que o outro é o vosso reflexo. – Disse-lhes.
Olhou-se no espelho e ajeitou o cabelo.
Aproximou o rosto.
Aquelas rugas seriam suas ou da sua sósia no aquário?

***
(Escrito no âmbito dos desafios das Páginas Partilhadas grupo de escritores que se juntou para escrever textos relacionados com um tópico colectivo definido mensalmente)

Janela a janela

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Eudócio Firmino viveu sempre debaixo do imenso pavor duma morte precoce. Resguardava-se de todos os riscos hipotéticos ou irreais. Por esse facto, pouco mais conhecia do mundo do que as duas janelas da sua casa, hermeticamente selada e clinicamente asséptica. Matutou, matutou até que finalmente encontrou uma situação: propôs ao seu banco alterar a periocidadade do empréstimo da sua casa para 200 anos, assegurando assim um seguro de saúde que o manteria vivo até 31 de Dezembro de 2217. Eudócio Firmino apostou tudo no óbvio interesse do Estado em manter vivos os cidadãos em situação contributiva ...pelo menos enquanto não regularizassem as suas obrigações. Jogou e ganhou, pois as janelas em breve se tornaram demasiado curtas para os seus medos. Entediado, saiu para a rua, esquecendo-se de levar a chave que nunca antes utilizara. Optou por viver do lado de fora das janelas, o que era um pouco aborrecido, sobretudo no Inverno. Acabou por renogociar o contrato, mais uma vez, para fazer um…