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Matar o tempo

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Olá. Eu sou um dos carcereiros do viajante do tempo. Sou o guarda número 37. Muito prazer em conhecer-te.
Desde que o percurso do viajante do tempo foi desvendado, tornou-se crucial instalar celas em todos os locais e tempos por onde continuava a viajar, à revelia da vontade das autoridades.
Estou de vigia a um dos locais onde a máquina do tempo poderá aportar entre o meu nascimento e a data da minha morte, daqui a 43 anos.
Na maior parte do tempo não tenho nada que fazer. O tédio é a nota dominante dos meus dias, a desesperança o libreto da minha vida.
De qualquer forma, acredito que as chefias estão a cometer um erro. Para quê prender o viajante do tempo? Não seria mais simples matar o próprio tempo? Sem passado ou futuro, o viajante teria de se contentar com o momento presente, vendo-se impedido de fugir para outro período histórico.
Tenho passado muito tempo a pensar neste projecto, debruçado sobre esta altruística intenção.
É que, bem vês, não sou o único prisioneiro das excentr…

O comboio infinito I

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O comboio ser infinito há muito que deixara de me surpreender. 
Até tinha as suas vantagens.
Quando estivesse atrasado, bastava-me a correr ao longo das carruagens interligadas, em direção ao meu destino. Desse modo, dividia a distância pelo movimento, viajando também através do tempo, tal como me locomovia através do espaço.
Sabia que a viagem daquela composição nunca se iniciara e também nunca terminaria.
As estações eram simples pontos cardeais cravados na eternidade.
Quando o comboio infinito dava a curva, esta era infinita, pelo menos durante o curto espaço de tempo da viragem para o outro lado do eterno.
Que parte do infinito teria eu já percorrido? Um terço? Dois terços?

O comboio infinito II

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O comboio ser infinito, já nada me admirava.
Surpreendente foi descobrir pegadas no tecto da carruagem... Não uma marca solitária, mas uma fila de marcas perfeitamente sincronizadas, denunciando uma descontraída caminhada.
Quantas vezes não levantava os olhos à espera de descobrir o invulgar passageiro de pernas para o ar - olhos ao nível dos meus, mas com a cabeça ao contrário.
Não seria o comboio a insuspeitada teia dum predador arribado dos confins do universo? Um potente alucinogénico criaria a ilusão do comboio, enquanto esperávamos o nosso momento de sermos devorados!
Na verdade, e pensando bem nisso, os varões e pegas tinham qualquer coisas de sinistro... Pareciam mais para nos segurar do que para nos segurarmos.

O comboio infinito III

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Nunca vira um revisor no comboio infinito... Nada a estranhar, num meio de transporte sem fim - seria humanamente impossível o pica chegar a todas as carruagens.
Ou talvez a explicação fosse mais prosaica: o bilhete seríamos nós, os próprios passageiros... 
Seríamos inesperados doppelgängers, a pagar pelos pecados de criminosos nunca capturados? 
Estaríamos todos mortos, numa espécie de purgatório?
Ou seria este o inferno?
Convenhamos que, a réstia de esperança em chegarmos finalmente à nossa estação, era em si mesma uma infame trela eterna... o inferno não poderia ser muito diferente disso.
Mas, contra todas as expectativas, a esperança perdurava, nos solavancos das rodas na linha do comboio. A esperança de que em breve as portas se abririam e regressaríamos à vida...
Enfim, as coisas de que me ia lembrando durante a perpétua viagem!
E os negros vidros reflectiam o interior da carruagem, como se a paisagem fossem afinal os passageiros - talvez o paraíso seja um lugar olvidado dentro…

Doçura ou travessura

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Quando chegava a noite das bruxas, o senhor Garcia tinha sempre qualquer coisa doce em casa. Já sabia com o que contava... Apesar de ter alguma dificuldade em movimentar-se, lá se levantava a custo do sofá, desligando a televisão com o comando, enquanto respondia "Já vai! Já vai!" à insistência da campainha.

"Doçura ou travessura!" Gritavam miúdos mascarados de bruxas, fantasmas e monstros, a pular gulosamente no alpendre.

O senhor Garcia sorria e oferecia rebuçados, bombons e gomas, reparando que mais uma vez o velho carrocel fora montado no centro da praça. Quem seria o benfeitor das crianças da aldeia? O carrossel era montado na madrugada de 30 de Outubro e desmontado na madrugada de 1 de Novembro, sem que ninguém desse por nada. Descendo os olhos para as expectantes assombrações, doseava cuidadosamente os doces, para sobrar sempre alguma coisa para a última aparição da noite.

Não sabia de onde vinha aquele último menino, mas também não sabia se queria descobri…

O ladrão de desejos

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Alfio tinha um talento muito particular: ao roubar uma moeda do poço dos desejos, roubava o desejo de quem a atirara ao poço.
O único problema era nunca saber que desejo iria bafejar a sua vida de seguida.
Recebeu um Prémio Nobel de Economia, sem sequer ter tido alguma vez positiva a matemática.
Era uma lotaria, é verdade, mas as boas surpresas compensavam as contrariedades.
Um dia pôs-se a pensar na sua habilidade. Funcionaria apenas com os poços dos desejos? Se roubasse cadeados da ponte do amor, por exemplo, roubaria a felicidade de quem atirara a chave ao rio? Sem perder mais tempo, trotou alegremente até Paris, depois de ganhar uma viagem de avião num concurso a que não concorrera.

Manual do/a Caçador(a) de Rios

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Há rios horizontais e rios verticais. Na confluência das águas, na ponte do rio intermédio, onde vês aquilo que desejas, o preço da portagem é o teu espírito - é , por isso, sinal de sabedoria viajar sempre com uma alma sobresselente.