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Babel

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Houve um tempo em que os homens falavam línguas diferentes e não se entendiam.

Então construíram uma torre.

Não se tratava duma torre na verdadeira acepção da palavra. Era mais um oráculo de pedra, uma antena, um receptor da suprema consciência que o universo tem de si próprio.

Demorou tempo, mas todos os povos adoptaram o idioma divino.

Agora os homens falam a mesma língua, embora continuem sem se entender.

Tic-tac Tic-tac Tic-tac

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Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, O tic-tac estalado das máquinas de escrever. Que náusea de vida! Que abjecção esta regularidade! Que sono este ser assim! in Dactilografia Álvaro de Campos

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Qual é o maior medo dum escritor? Muitos apostariam nos temíveis bloqueios criativos. Outros apontariam o receio de não conseguir transpor para o papel todos os universos que traz dentro da cabeça. Alguns indicariam o perder o "toque", ver-se privado do talento no manuseamento da língua. Pois bem, eu diria que o supremo terror dum artificie de palavras é o de não ser lido… É o horror de que a sua escrita seja em vão, que não toque ninguém e por ninguém seja tocada.
Pela parte que me tocava, tivera já a minha quota parte de desilusões ao consultar os tops de vendas de livros.
Conhecem a anedota do escritor? O escritor encontra um amigo que lhe diz "Parabéns, gostei muito do teu livro." O escritor responde "Ah! Foste tu que o compraste? Obrigado." Assim me sentia…

Quimera I

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Era uma vez um homem que tinha tempo a menos e imaginação a mais. Combinação que raramente dá bom resultado. Os homens com tempo a mais e imaginação a menos que o digam! São condições clínicas pura e simplesmente deploráveis. O normal, e o que ditam as regras da boa convivência social, é que os homens não tenham nem  tempo nem imaginação.

Ora desta maneira, para o homem que tinha tempo a menos e imaginação a mais a fonte num velho mosteiro não era apenas uma fonte - era a Fonte dos Desejos.

E o homem que tinha tempo a menos e imaginação a mais apanhado assim desprevenido, sem sequer uma onírica moeda na algibeira para atirar à fonte!

Quimera II

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O homem com tempo a menos e imaginação a mais deixou cair a boca de espanto. Que estranho voltar a um lugar que conhecia apenas dum sonho!

Lá estava a fonte no claustro do velho mosteiro, exactamente como a recordava do sonho anterior.

Que conclusão retirar da insólita situação? Que um homem com tempo a menos e imaginação a mais, encontra sempre o seu caminho de volta? Ou que sonhar talvez seja como cometer um crime e o sonhador, tal como o criminoso regressa sempre ao local do crime, regressa também sempre ao local do sonho?

Desprevenido da recorrência, o homem com tempo a menos e imaginação a mais, esquecera-se de colocar uma moedita no bolso do sonhar!

Não se fez rogado e pediu o seu desejo, ainda assim!

Quimera III

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O homem que tinha tempo a menos e imaginação a mais reconheceu a fonte do velho mosteiro.

Não era a primeira nem a segunda vez que a visitava.

Era a mais peculiar das fontes dos desejos: era desnecessário atirar moedas para ver cumpridos os desejos.

O homem que tinha tempo a menos e imaginação a mais deambulou encantado pelo velho mosteiro. Mas não lhe encontrou saída nem se cruzou com vivalma.

O silêncio tornou-se difícil de suportar. Gritou por ajuda, só para ouvir algum som. Todavia, ninguém lhe acudiu.

Continuou a chamar.

Chamou, chamou, chamou.

O homem que tinha tempo a menos e imaginação a mais calou-se quando se apercebeu de que não havia eco. Primeiro assustou-se, a seguir admoestou-se. Por que razão haveria de existir eco nos sonhos?

Nos sonhos as coisas seguiam as regras próprias do sonhar, não as do mundo real.

Era bom que se habituasse.

O homem que tinha tempo a menos e imaginação a mais desejara viver nos sonhos e num sonho acabara a viver. Quisera ter tempo proporcional…

Comédia trágico-romântica em tons de azul

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Ela acenou-lhe da janela. Ele correu para a rapariga, mas a porta não era verdadeira. O rapaz tudo fez para a abrir. Em vão. Despeitada, duvidando das intenções do bem parecido rapaz, ela fechou a janela com estrondo. Logo a porta se tornou verdadeira e a janela um fingimento. Quando ele finalmente conseguir entrar, subiu lesto ao primeiro andar. Ela desaparecera. Não estava em nenhum lugar que se visse. Intrigado, desceu e deteve-se no meio da sala. Foi então que a tornou a ver. A bela mulher tornara-se apenas num desbotado sorriso azul no painel de azulejos.

O Passageiro

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Alguma vez me viram a viajar na sombra dum autocarro? Hão-de reparar. Olhem com atenção para os autocarros. Há uma cabeça a mais na sombra, em relação aos passageiros que vos espiam da janela.
Na paragem seguinte salto para a sombra dum prédio, lançando-me de edifício em edifício, apanhando um avião ou barco, se for preciso.
 Sou um passageiro das sombras. 
Dou uma volta ao mundo por dia, à boleia do sol - preciso da luz, para não me diluir na escuridão.
No dia que a noite me apanhar distraído acabou-se, mas valerá a pena, se sucumbir a cortejar a sombra duma mulher fatal.